- Acabo de ser descongelado...
- É um desses, ehn? Tenho perguntado a mim mesmo o que foi que fez os nossos antepassados pensarem que podiam despejar toda a sua ralé em cima de nós. A última coisa de que esta cidade precisa é de mais gente... especialmente de pessoas que não conseguiram adaptar-se ao seu próprio tempo. O que eu mais desejava era devolvê-lo com um pontapé no rabo para o ano de que você veio, seja lá ele qual for, com uma mensagem para que toda a gente se convença de que o futuro com que sonham não é, repito, não é, pavimentado com ouro.


- Olhe - disse ansiosamente, - apanhei uma pancada na cabeça. Estou confuso. Qual é a data? A data completa?
- O quê?
Eu devia ter-me conservado calado até ter encontrado qualquer coisa, um calendário ou um jornal. Mas tinha de saber imediatamente; não podia esperar mais.
- Que ano?
- Amigo, deve ter apanhado uma grande pancada. Estamos em 1970.
Vi-o a lançar-me uma olhadela para as roupas.
O meu alivio foi quase maior do que tudo quanto eu podia suportar. Tinha-o conseguido, tinha-o conseguido! Não era demasiado tarde.



Enquanto esperava acocorado ouvi a água a correr na casa de banho e calculei que tivessem ido lavar-se, deixando o meu outro eu na sala. Tive então um pensamento horrendo; o que aconteceria se eu entrasse furtivamente e cortasse as goelas do meu corpo indefeso? Mas reprimi-o; a curiosidade não era tão forte como isso e o suicídio é uma dessas experiências finais, mesmo que as circunstancias sejam matematicamente intrigantes.