Alguns excertos:
Nós partimos para o cosmo preparados para tudo: solidão, dificuldades, esgotamento, morte. A modéstia
impede-nos de o confessarmos, mas há alturas em que temos óptima opinião a nosso respeito.
E, contudo, se o examinarmos mais de perto, o nosso entusiasmo não passa de impostura. Nós não
queremos conquistar o cosmo, queremos simplesmente estender os
limites da Terra até às fronteiras do cosmo. Para nós, tal ou tal planeta é tão
árido como o Sahara, outro tão gelado como o Polo Norte, outro ainda tão luxuriante como a
bacia do Amazonas. Somos humanitários e cavalheirescos; não queremos escravizar outras raças,
queremos apenas transmitir-lhes os nossos valores e, em troca, apoderarmo-nos da sua herança. Consideramo-nos
os Cavaleiros do Sagrado Contacto.
- Por que estás descalça?
Ela respondeu de modo hesitante.
- Não sei... Devo ter deixado os sapatos em qualquer lado.
Não insisti no assunto.
- Tens de despir o vestido para enfiar isto.
- Fato de voo? Para que?
Quando tentou tirar o vestido, ficou patente um facto extraordinário: não tinha qualquer fecho ou
botão; os botões encarnados que se viam na frente eram apenas decorativos. Rheya sorriu, embaraçada.
Como se fosse o modo mais banal de proceder, rasguei-lhe o vestido nas costas para que o pudesse tirar pela cabeça.
- Em certo sentido subjectivo, eles são humanos. Não sabem absolutamente nada a respeito da sua própria
origem.
- Mas então como explica...?
- Eles... toda a coisa é regenerada como uma extraordinária rapidez, a uma velocidade incrível...
Depois começam a comportar-se novamente como...
- Como?
- Como os recordamos, como estão gravados na nossa memória.
A armação de aço foi-se entortando cada vez mais para dentro e a pintura começou a
estalar. De repente compreendi: em vez de empurrar a porta, que abria para fora, Rheya estava a tentar abri-la
puxando-a para si. Houve um estalido ressonante e o puxador desapareceu, arrancado do lugar. Apareceram duas mãos
manchadas de sangue, passando pela abertura. A porta partiu-se em duas, as metades ficando pendentes nas dobradiças.
Primeiro apareceu uma face, mortalmente pálida; depois uma aparição de ar selvagem, vestindo
um roupão laranja e preto, atirou-se soluçante contra o meu peito.